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Trabalhos apresentados no V Colóquio Multidisciplinar -
Deglutição & Disfagia - Universidade Federal do
Rio de Janeiro UFRJ - Rio de Janeiro maio 2003
http://www.disfagia.anato.ufrj.br/coloquio_trab_selecion_01.htm
Estudo Comparativo da Deglutição em Adultos Jovens
e Idosos Sadios
GEDD - Grupo de Estudos das Disfunções da Deglutição
- HCFMUSP
Introdução
Sabe-se que o envelhecimento leva a alterações estruturais
e funcionais que podem ter repercussão na deglutição.
Não existe consenso sobre o impacto das modificações
da idade, na deglutição, pois é grandes a variação
individual nesse grupo etário e as manifestações
nem sempre se apresentam exuberantes, sendo freqüentemente
compensadas. Dentre estas perdas, relatam-se na literatura modificações
do tempo total de duração da deglutição,
com lentificação de movimentos de língua e
aumento do tempo de disparo do reflexo, lentificação
entre os eventos neuromusculares na fase faríngea; redução
da velocidade do peristaltismo esofágico comparado aos indivíduos
jovens e abertura do cricofaríngeo discretamente prolongada
(Mansson & Sandberg, 1975); Sonies et al. 1988; Loggeman, 1990).
Hughes (1996), considerou que ao se observar os pacientes bebendo
água podiam ser notados tanto aspectos qualitativos (intercorrências
como tosse, engasgos), quanto quantitativos, através do cálculo
de três diferentes índices: média de volume
por deglutições, média de tempo por deglutição
e média de volume pelo tempo que corresponde à capacidade
de deglutição. Esses índices puderam ser usados
em triagem e permitiram identificar riscos de disfagia ou complicações
e um monitoramento da evolução clínica da deglutição.
O objetivo do presente trabalho foi estudar população
brasileira, comparando a deglutição de indivíduos
jovens e idosos normais, a partir do teste de água proposto
por Hughes (1996).
Método
Cento e onze indivíduos participaram deste estudo, sendo
72 do sexo feminino e 39 do sexo masculino, residentes no Estado
de São Paulo e com idade entre 12 e 96 anos, divididos em
8 decênios identificados como grupos de faixa etária
(FET) sendo: FET 1, de 12 a 19 anos; FET 2 de 20 a 29 anos; FET
3 de 30 a 39 anos; FET 4 de 40 a 49 anos; FET 5 de 50 a 59 anos;
FET 6 de 60 a 69 anos; FET 7 de 70 a 79 anos e FET 8 de 80 a 96
anos. Não houve controle de distribuição por
idade com relação ao sexo.
Foram critérios de exclusão: presença de antecedentes
neurológicos, queixas de dificuldades para a deglutição
e a utilização de medicamentos que provocassem xerostomia.
Cada sujeito foi questionado (Hinds et al, 1998) a respeito da
saúde geral, uso de medicamentos, antecedentes de risco para
disfagia e distúrbios da comunicação associados.
Em seguida, foi feita avaliação proposta por Hughes
& Wiles (1996), relacionada às condições
gerais de deglutição e mediu-se peso e altura. Finalmente,
observou-se as estruturas envolvidas na fase oral da deglutição
e foi realizado o teste da água. Esta prova (Hughes &
Wiles, 1996) consistiu em solicitar a cada sujeito que bebesse 150
ml de água, à temperatura ambiente, do modo e velocidade
que lhe fosse mais confortável. Os sujeitos foram observados
lateralmente e o número de deglutições foi
contado através da técnica dos quatro dedos (dedo
mínimo - cricóide, dedo anelar - tireóide,
dedo médio - hióide, dedo indicador - região
sublingual) proposta por Logemann (1983), e pela observação
dos movimentos da cartilagem tireóide, que permitiu perceber
cada movimento de excursão laríngea da deglutição.
Durante a ingestão foi cronometrado o tempo da seguinte forma:
início, no momento em que a água tocou os lábios
do indivíduo e término, após a última
elevação laríngea e o seu retorno a posição
de repouso. Durante e após a ingestão da água
foi observado se os sujeitos apresentaram pausas, engasgos, tosses
ou sufocações, consideradas intercorrências.
O método estatístico utilizado foi uma análise
de correlação de Spearman, construindo-se uma matriz
de correlações não paramétricas, considerando
idade, grupo de faixa etária, sexo, peso, estatura, número
de deglutições, tempo total de deglutição,
volume médio por deglutição, relação
volume / tempo e presença ou ausência de intercorrências.
Para complementação do estudo estatístico,
procedeu-se uma análise de variância para comparação
das médias das variáveis: número de deglutições,
tempo, volume, relação volume / tempo controlada pela
variável faixa etária nas 8 categorias, com posteriores
comparações múltiplas. Foi considerado p <
0,050 como índice de significância estatística.
Resultados
Análise Estatística
A análise de correlação de Spearman considerando
a relação da variável FET com as demais, mostrou
p<0,001, estatisticamente significativo, ou seja, o aumento da
FET ocasionou um aumento do número de deglutições,
do tempo total de deglutição, e das intercorrências;
e inversamente o aumento da FET demonstrou uma diminuição
do volume e da relação volume / tempo.
Baseada no sexo (1, feminino e 2, masculino), esta análise
mostrou p<0,001, em relação ao volume e ao volume
/ tempo, onde o sexo masculino deglutiu maiores volumes, em relações
maiores de volume / tempo; e inversamente, para número de
deglutições, tempo e intercorrências, o sexo
masculino apresentou menor número de deglutições,
em intervalos menores de tempo e menos intercorrências.
A variável peso não foi estatisticamente significativa,
nesta amostra, ao contrário da variável estatura,
que se mostrou parâmetro extremamente significativo: p<0,001
em relação ao volume e ao volume / tempo, indicando
que o aumento da estatura relacionou-se com aumento do volume ingerido
e da relação volume / tempo; e comparativamente relacionada
ao número de deglutições, tempo e intercorrências,
o aumento da estatura acarretou um menor número de deglutições,
num menor intervalo de tempo, com número menor de intercorrências.
A análise da variância controlada pela faixa etária
demonstrou uma tendência ao aumento do número de deglutições
e uma tendência ao aumento do tempo total de deglutição
com o aumento da faixa etária. E também mostrou uma
tendência à redução do volume e da relação
volume / tempo, com o aumento da faixa etária até
a década de 60, depois manteve-se estável. Estes dados
confirmaram a análise de correlação de Spearman.
A análise das comparações múltiplas
entre os grupos de FET tomados um a um mostrou diferença
estatisticamente significativa quando comparados os grupos FET versus
estatura (o FET 2 em relação a FET 6 e FET 7); FET
versus número de deglutições (FET 1 em relação
a FET 6 e 7); FET versus tempo (FET 1 com FET 6, 7 e 8, FET 2 com
FET 6, 7 e 8, FET 3 com FET 7 e 8, FET 4 com FET 8 e FET 5 com FET
8); para FET versus volume (FET 1 com FET 3, 6 e 7); para FET versus
relação volume / tempo (FET 1 com FET 6, 7 e 8 e FET
2 com FET 6 e7).
Em termos gerais, nossos dados mostram que os idosos necessitam
realizar maior número de deglutições para ingerir
a mesma quantidade de líquido e, embora alcancem o resultado
esperado, o fazem em maior tempo e com maior risco, o que confirma
os achados de literatura em relação à condição
vulnerável do idoso, perceptível mesmo nos indivíduos
sadios. Em relação à altura, existe uma sobreposição
dos fatores idade e estatura, pois os jovens da amostra são
mais altos que os idosos. Embora sejam recomendados estudos adicionais
para correção desse viés, sabe-se que o aumento
da idade acarreta a diminuição da estatura. Diferenças
entre gêneros foram peculiares à população
brasileira.
A análise da variância controlada pela faixa etária
demonstrou uma tendência ao aumento do número de deglutições
e uma tendência ao aumento do tempo total de deglutição,
com o aumento da faixa etária. E também mostrou uma
tendência à redução do volume e da relação
volume / tempo com o aumento da faixa etária até a
década de 60, depois manteve-se estável. Estes dados
confirmaram a análise de correlação de Spearman.
Discussão
O teste de Hughes constitui interessante procedimento para constituir
referências populacionais quantitativas e qualitativas da
deglutição. Ao permitir a observação
de situação funcional, permite identificar os indivíduos
limítrofes, no sub-grupo de risco, que podem vir a ter problemas
em situações que interfiram na condição
estável de compensação.
No estudo realizado, pode-se verificar que o teste foi sensível
em identificar diferenças quantitativas relacionadas ao efeito
da idade na deglutição. Estudos adicionais podem auxiliar
a graduação do risco.
Não se recomenda que o teste de Hughes, seja utilizado como
critério para a oferta de alimentação via oral
para pacientes disfágicos em serviços de saúde;
no entanto, pode servir como procedimento para a introduzir medidas
preventivas e para monitor a evolução da terapia,
desde que indicado devidamente, sendo considerados os riscos e as
condições clínicas do paciente.
Cabe ressaltar ainda, sua possível aplicação
em pesquisa sobre deglutição de indivíduos
sadios, constituindo-se linha de base para estudos com situações
em que se propõem tarefas adicionais a essa condição.
Referências bibliográficas
HINDS, N. P.; WILES, C. M. Assessment of Swallowing and
Referral to Speech and Language Therapists in Acute Stroke. Journal
of Medicine, 91 : 829 835, 1998.
HUGHES, T. A. T. & WILES, C. M. Clinical Measurement
of Swallowing in Health and in Neurogenic Dysphagia. Journal of
Medicine, 89 : 109 116, 1996.
LOGEMANN, J. A. - Effects of Aging on the Swallowing Mechanism.
Otolaryngologic Clinic of North America, 23 (6) : 1045 - 1056, 1990.
MANSSON, I.; SANDBERG N. - Oropharyngeal Sensitivity and Elecitation
of Swallowing in Man. Acta Otolaryngol (Stockh) 79 : 140 - 145 ,
1975.
SONIES, B.C.; PARENT L.J.; MORRISH K.;- BAUM B.J. - Durational
Aspects of the Oropharyngeal Phase of Swallow in Normal Adults.
Dysphagia, 3 : 1 10, 1988.
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